Pulou da cama com o despertador berrando-lhe os ouvidos. Tomou um gole de café amargo e lembrou de pegar as botinas. Ele sabia que com aqueletempo não podia dar bobeira. Ao abrir o portão, percebeu que as botinas não deveriam estar na sacola, e sim nos pés. Não se espantou porque já era de casa todo aqule aquaceiro. Deu de ombros e seguiu viagem, que era bem longa por sinal. Três ônibus, uns dez empurrões, dois palavrões e uma ruga na testa. Chegou. Descansou as botinas molhadas no canto da porta e disse até logo. Vestiu o brilhante uniforne azul e saiu em direção à cobertura. Pausa para o almoço. O estômago havia roncado há duas horas e agora parecia oco como um coco velho largado na praia. Subiu de novo. A sirene tocou avisando que daqui a dez minutos a condução ia passar. Correu. Subiu. Desceu. A rua estava fechada. A rua não era mais rua. Estava ilhada. Nem parecia aquela rua que ele havia dada tchau pela manhã. Olhou para os pés molhados e lembrou das belas botinas descansando no canto da porta. Deu de ombros. Andou por longos vinte minutos. Tentou andar. A ruga na testa mostrava o esforço. A chuva caía feito pedras do céu. A rua era rio a cada segundo passado. Os pés eram folhas secas que se desfazem ao tocar a água. Chegou em casa. Que casa? Chegou tarde para salvar o pouco de tudo que lhe restava. Uma lágrima grossa caiu dos olhos e se confundiu com a grossa chuva que caía dos olhos do céu. Pensou em sentar. Não tinha chão. Esfregou os olhos na ilusão de ver tudo mudado de novo. Que nada. Aquilo era a realidade que ja tinha lhe invadido a casa. Olhou para todos os lados de sua rua, de seu rio. Tudo era só água. Nem vizinho ali dava as caras. Alcançou portão e a água lhe alcançou o peito. E foi então que pensou no que de fato poderia ser feito.
4 dias atrás














